Inconsistências suicidas

Quero morrer. Acabo de pensar nisso, aqui, sentada em frente ao cinzeiro, fumando o último cigarro da carteira. Em um milésimo de segundo, penso em exalar o gás do fogãozinho pequeno que tenho. Mas penso que, antes de cair no chão sem o ar precioso que tanto meu corpo precisa, necessito com urgência desligar o gás, porque não quero matar meus vizinhos. Coitados. Não quero matá-los, embora saiba que algum deles deseja isso em seus sonhos mais profundos.

Fumei todos os cigarros. Me imagino morrendo de câncer daqui há uns anos. Me imagino também como uma velha de 94 anos, que não aguenta mais viver e que a parentada também deseja a morte rápida. Penso no amor. Me pergunto o que ele é. Se ele existe. Se tudo isso que chamamos de sentimento não é apenas uma invenção tola de uma menina que não tinha nada pra fazer e resolveu dizer que o amor é o amor. Sentir. Sinto muito e sinto pouco, também em milésimos de segundos. Me pergunto o que quero. Se quero que me prendam, se quero que me soltem. Não sei. Não faço ideia.

Ainda sentada em frente ao cinzeiro, jogo a bituca do cigarro no ralo entupido no meio do quintal. Olho para a nova corda verde e linda que comprei. Olho para as roupas que iria pendurar lá, mas estou com preguiça. Olho para a corda novamente. Penso em como a enrolaria em meu pescoço e penso em como me achariam no dia seguinte. Quem viria primeiro? Chorariam no meu velório? Todos os amigos, familiares e amores se reuniriam em prol da significância de minha existência nunca nem notada ou querida durante vida?

Desisto das ideias. Ambas, além de me darem trabalho, me fariam sentir culpada. Culpada porque tenho certeza de que, no milésimo de segundo entre a vida e a morte, eu me arrependeria. Ou não. Sei lá. Mas decidi nesse instante não seguir com o plano.

Pego a corda, abro a embalagem que a cobre, como uma boceta cobre um pau durante uma noite fria de um agosto que só eu lembro. Tento colocar no meu pescoço e puxo um pouco. Sinto o gostinho do perigo, mas logo tiro e rio pra mim mesma, me perguntando como foi que cheguei aqui.

Faço mil coisas. Mil coisas. Umas boas, outras péssimas, como assistir àquele pornô de sempre na esperança de adormecer com as mãos cheias de gozo. Faço coisas, outras coisas tão insignificantes que só serviriam para me fazer apagar esse texto inteiro depois que as lesse novamente. Vejo o amor, sinto o amor. Vou ver um filme, e encontro mais amor. Me sinto compreendida porque sou fácil pra esses filmes antigos que falam de amor da forma que eu não gostaria, da forma dura e frágil e não daquela bonita e pura que tanto gosto mas pouco pratico. Minha culpa, eu sei.

Vejo um casal com um cachorro na rua. Acho que é Belinha o nome da cachorra. Belinha me lembra a cachorra da avó de uma amiga de infância. A cadela foi atropelada por um carro. Coitada da Belinha. O que será que ela pensou naquele milésimo de segundo em que colocou, pela última vez, a língua pra fora? Vou na cozinha fazer um chá. Nem pornô, nem dorflex. Chá falso de camomila podre de supermercado barato é o que me derruba em cheio.

Olho pra lua. Ela está linda. Parece se pôr como o sol. A vida é maravilhosa, O amor é gostoso. Mais um dia vestindo uma roupa que peguei por engano de um amigo. Tem o cheiro dele. Será que vou vê-lo essa semana? Espero que ele esteja bem.

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