“A educação sexual ainda é um dilema e faz falta na relação entre pais e filhos”

Quando o assunto é sexo, sempre me vem à cabeça algumas perguntas: Por que ainda é uma vergonha para muitos falar sobre a prática de forma encorajadora? Por que procurar o próprio prazer sem um parceiro(a) ainda é uma barreira para alguns? Por que tanta gente ainda sente vergonha em entrar em uma sex shop, mesmo que queira muito comprar algum produto de lá?

As respostas podem variar de acordo com os diferentes pensamentos e percepções sobre moral amontoados em nossa sociedade. Mas nenhum deles vai diminuir as visitas que esses lugares têm e nem retirar sua atmosfera por vezes compreensiva, por vezes educadora e, não raro mercadológica de encarar as necessidades e desejos da sexualidade humana.

Em um surto de curiosidade sem fim sobre o perfil de quem compra ali, fui até uma sex shop localizado em um dos mais antigos prédios comerciais do Centro de Manaus. Estava ali com mil e uma perguntas anotadas, tentando adivinhar cada resposta que receberia. Mas ao conversar com as funcionárias do local, experts e detentoras de muitas histórias relacionadas à prática sexual, pude descobrir que a busca pelo melhor prazer sozinho ou a dois é só a ponta do iceberg.

Sex shoppers

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Vista da frente da loja. Foto: Vanessa Rocha

Ao entrar na loja, que é uma das mais antigas sex shops da cidade, sou atendida por Lia e Simone. Me apresento e explico as intenções pessoais e jornalísticas que me levaram até ali. Começo a conversa perguntando quem são as pessoas que mais frequentam o local. Se são homens ou mulheres e que produto eles mais procuram.

Lia deixa bem claro que o local é frequentado por todos os gêneros, de todas as sexualidades, de todas as idades e estados civis. Nada de mais uns e menos outros. Héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e outros: todos frequentam o local e procuram algum produto que mostre um resultado específico para cada situação que lhes convém.

“Tem os que querem aumentar o pênis e compram a capa peniana. Os que querem manter relações, mas não tem ereção por conta da idade e até por conta de doenças, e aí compram produtos que fazem aumentar o pênis ou que tragam maior sensibilidade para o parceiro ou a parceira. Tem mulheres que nunca atingiram o orgasmo no ponto G e compram produtos para estimular a sensibilidade na região certa. Tem as próteses, os vibradores, géis que pulsam e esfriam, lubrificantes comestíveis. Todos os produtos saem bastante”.

Lia contou que muitos casais frequentam o local em busca de melhorias na relação sexual. Grande parte deles procuram produtos que reativem o desejo, pois algum dos parceiros ou até os dois trabalham muito e tem uma rotina desgastante, onde geralmente se cansam mais rápido durante o sexo ou perderam de vez o apetite sexual. Ela até dá um palpite sobre isso. “O queridinho deles é o vibrador. Pelo menos 50% dos casais tem um em casa”, disse.

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A parede é repleta de pênis de borracha. Foto: Heloane Bentes

As compras pensadas em parceria são bem frequentes, de acordo com a vendedora. No caso dos pênis de borracha, por exemplo, ela é minuciosamente pensada, pois muitas mulheres relatam que o marido pode não gostar que elas comprem pênis maiores, causando uma impressão de que são insatisfeitas com o órgão do companheiro. “Sempre tem um diálogo antes, algo de autorização mesmo, mais pra que tudo corra bem, sem estresses entre o casal”, diz.

Ainda sobre essas particularidades entre casais, a vendedora afirma que muitos homens vão até a loja para comprar vibradores e consolos porque têm o desejo de ver suas companheiras ou companheiros sendo penetrados, mas não aceitam que outro homem faça isso. “Muito preferem até isso porque tem medo de ser corno ou algo assim. Pensam dessa forma e aí compram pra eles mesmos fazerem a penetração”, detalha Lia.

Mudanças de comportamento

Indiretamente, Lia é uma testemunha das transformações no comportamento dos compradores da sex shop. Explico: ela trabalhou na loja como freelancer de 2004 até 2006, quando então foi efetivada. A partir daquele ano, ficou na empresa até 2012 e saiu. Depois voltou em 2015, ano em que notou uma mudança significante nos perfis de compra dos homens heterossexuais:

Eles vinham aqui e compravam produtos mais pra satisfazer seus próprios desejos e seu apetite sexual, sem se importar muito com a vontade da companheira. Hoje em dia eles vem procurando produtos para satisfazer tanto eles quanto elas. Falam muito sobre os problemas que enfrentam, mulheres que chegaram na menopausa e perderam a lubrificação ou que já não tem mais o mesmo apetite sexual de antes. Chegam aqui pensando nas companheiras”.

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Produtos como géis e lubrificantes são populares entre os clientes. Foto: Heloane Bentes

Outra mudança no comportamento sexual entre casais é o famoso beijo grego, que por muito tempo foi alvo de preconceito e falta de educação sexual. Simone, que já está há quase 4 anos na loja, me contou que muitas mulheres conversam com ela sobre as vontades do marido em querer penetrações e até um oral no ânus.

‘Será que ele é gay? Isso é normal?’ Muitas me perguntam aflitas sobre esse assunto e sempre digo que é algo do prazer do cara, que elas devem conhecer e entender isso, assim como eles devem entende-las”, fala Simone.

Muitos pesquisadores confirmaram ao longo dos anos que a próstata é o ponto G do homem. É lá onde ele encontra prazer, e isso não significa mudança da sexualidade dele. Eles mesmos nem se conhecem, muitos não sabem onde fica a glande, o escroto. Acho que a falha pra isso acontecer é a educação sexual, que ainda é um dilema e faz falta na relação entre pais e filhos”, complementa Lia.

A quebra de barreiras em relação à penetração no homem já chegou até nas marcas de produtos de sex shop, como o caso da “INTT”, que recentemente produziu um gel especial para beijo grego. Além disso, existem inúmeros vibradores e estimuladores de próstata, produzidos com um design certo para o ânus masculino, assim como no caso dos vibradores para as mulheres.

Perguntei da Simone e ela disse que na hora do sexo não tem essa de SOMENTE usar o vibrador masculino no homem e o feminino na mulher. Pode usar à vontade, mesmo que hajam esses específicos para cada corpo.

Casos & Casos

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Recepção da loja no clima do Natal. Foto: Vanessa Rocha

Ali, de acordo com elas, frequentam em média 12 pessoas por dia, alcançando um número aproximado, em 23 dias úteis, de mais de 3 mil clientes por ano. O “boca a boca” entre os clientes fez a fama do lugar, que em datas comemorativas como Dia dos Namorados, Dia da Mulher, Natal e Dia das Mães, atinge um alto número de vendas.

Os casos mais inusitados que a dupla destaca relaciona-se à tentativas (falhas ou não) de cautela e descrição dos clientes: uma mulher que encontrou o nome da loja no extrato do cartão do marido e foi até lá averiguar; mulheres que frequentavam o lugar e descobriram que o parceiro frequentava também; estudantes menores de idade que sempre tentam entrar na sex shop mas acabam sendo barrados e voltam anos depois, já mais velhos; e clientes que após usarem constantemente os famosos perfumes que atraem a pessoa do sexo desejado conquistaram uma auto estima inabalável.

As vivências quase antropológicas de Lia e Simone são diárias, de segunda a sexta, das 9h às 19h, e aos sábados, até às 17h, para ser mais específica. Nesses dias e horários, atendem ainda pelas redes sociais e às vezes descem os 18 andares no elevador para entregar produtos no carro de clientes que preferem não entrar na loja. E por que essas pessoas não quiseram ir até lá? Pressa? Não queriam ser reconhecidos por alguém? Vergonha de entrar na sex shop? Isso ainda é difícil de saber.

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