Muito barulho é preciso

Reunir o designer, DJ e produtor cultural Marcelo Nobre e a Relações-Públicas e ativista Samilla Souza em uma mesa de bar para uma entrevista foi um desafio. Mas talvez a maior responsabilidade e dever que tenho ao escrever este texto é transmitir a real importância que estes dois têm politicamente e socialmente em nosso “país”, Manaus.

De um lado temos Samilla, uma jovem de 21 anos que luta pelo feminismo, pelos direitos dos LGBTs e chegada de educação e informação em locais onde as políticas públicas ainda não são presentes. Ela faz isso nas redes sociais, ao vivo, em rodas de conversa, faculdades e até nas mesas de bar. Por onde passa, Samilla ensina que o respeito é bom, e todos gostam.

Do outro temos Marcelo, ou como é conhecido artisticamente, Balaclavo. O jovem de personalidade marcante é preto, gay e artista, sendo que a arte de Marcelo está presente e viva do fio de cabelo até a ponta de seu pé. Ele é a voz da representatividade, mas não só fala, ele também faz. Faz festa, faz eventos, viabiliza espaços e situações para que os mais diferentes seres humanos se sintam à vontade e não sejam julgados por quem são.

Visivelmente invisíveis

Marcelo

“Nós que somos pretos, gays, lésbicas, trans e etc somos tratados como se fossemos invisíveis. Somos vítimas de invisibilidades, mas não somos invisíveis. As pessoas nos veem, nos julgam. Os seres que são diferentes incomodam, tiram do sério, causam indignação”, afirma o designer durante a entrevista que faço com ele e com Samilla, em um famoso bar no Centro da cidade.

Considerado um ativista da representatividade no cenário cultural manauara, Marcelo Nobre já passou por muitos problemas de aceitação quando mais novo, tanto contra si mesmo quanto pela parte de familiares. Ele conta que demorou anos para aceitar sua sexualidade, principalmente na época em que era o único gay de seu círculo de amigos, e ainda não era totalmente aceito pela sua família.

“Minha mãe sempre me disse que era errado ser gay. No meu círculo social, eu era sempre atração, todo mundo queria saber coisas sobre como era ser gay. Só passei a realmente me entender e assumir quem sou quando conheci outras pessoas LGBTs. Naquele meio todos passavam pelos mesmos problemas e tínhamos com quem conversar”, disse

Samilla ok

No caso de Samilla Souza a história foi um pouco diferente. Ela conta que única barra que passou foi ao tentar entender que não era lésbica, e sim bissexual. “Depois de anos achando que era lésbica foi difícil entender que estava apaixonada por um cara (risos)”. Tanto no ambiente familiar quanto no ciclo social de Samilla a aceitação e o respeito por sua sexualidade sempre foram unanimidade.

Projetos político-sociais

A relação com a mãe, que sempre a aceitou, foi tão significante para a Relações-Públicas que a encorajou a produzir em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) um evento que viabilizasse a educação sobre sexualidade e o diálogo entre mulheres LGBTs com suas respectivas famílias.  O evento se chamou “Ella”, e aconteceu em maio deste ano.

“A experiência no Ella foi algo maravilhoso. Houve casos em que meninas choraram, chegaram comigo me agradecendo. Tinham pais que antes não aceitavam a orientação sexual das filhas, mas que surpreenderam elas aparecendo no evento e se engajando nos bate papos, querendo entender e aprender. Também foi um momento muito legal comigo e com a minha mãe, pessoa que me inspirou a levar essa compreensão para outros pais”, comenta.

Depois do evento, Samilla continuou engajada em passar informação não só para mulheres e para LGBTs, mas para as pessoas que agiam com atitudes preconceituosas e apoiavam atitudes desrespeitosas. E a oportunidade em dar continuidade a práticas políticas veio nas últimas eleições, quando participou de um movimento que ficou conhecido como “Vira Voto”. Na ocasião ela conheceu um grupo de pessoas interessadas em levar informação política e social para jovens de periferias. Eles se juntaram e criaram o coletivo Uirapuru, que iniciou suas atividades em prol de educação política com foco em adolescentes em novembro deste ano.

Marcelo conta que depois que começou a frequentar festas LGBT em Manaus, começou a sentir falta de mais representatividade nas músicas, no público e no próprio ambiente. “Eu queria ir numa festa onde pudesse ouvir outros estilos de música, como hip-hop, rap, trap, e ver outros públicos, mais gays negros, transexuais, outros tipos de corpos”.

Esse foi o pontapé para ele criar a festa “Diferentona”, um evento onde o foco são músicas de vários gêneros incomuns na maior parte das festas e a presença de um público mais diverso. Ele queria propor, com a festa, uma reunião de diferentes tribos, diferentes representações, todos em harmonia num local onde cada um se sentisse confortável.

“A receptividade foi tão boa que as pessoas vinham até mim me parabenizar por fazer um rolê diferente, que abraçasse vários públicos, até mesmo os que são de fora do mundo LGBT, e que fosse acessível. Fui então criando outros eventos, como no caso a “Osobô”, uma festa voltada para negros daqui de Manaus. Pensei nisso porque muita gente não se reconhece como negro, eu mesmo demorei muito para me reconhecer. Acho que na minha vida eu tive que ouvir mais coisas dos outros por ser negro do que por ser gay”, disse.

Ele comenta sobre as padronizações existentes dentro de alguns grupos de minoria. Essas atitudes geralmente vêm nas construções errôneas presentes na cultura da sociedade, que pratica uma objetificação nas pessoas, querendo que elas sejam quem elas não são.

O reconhecimento

Os caminhos que os dois tiveram que percorrer para serem bem resolvidos foi árduo e demorado, mas resultou em algo que os dois têm em comum: a luta pela representatividade e pelos direitos das pessoas que querem ser apenas livres. Prova disso é o reconhecimento que os dois têm no cenário local e a importância de suas ações em prol da igualdade e do respeito pelas diferenças, que serviu ainda para ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo que eles já enfrentaram um dia.

Um relatório apresentado pela Anistia Internacional em março deste ano apontou que o Brasil foi o país com o maior número de mortes de jovens negros, pessoas LGBTI, e outros membros de grupos de minoria, bem como muitos defensores de direitos. O agravamento da violênciade acordo o levantamento “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo”, pode ser associado à política de segurança pública brasileira, baseada em intervenções policiais altamente militarizadas.

“Por que barulho é necessário?”

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Marcelo Nobre: “O que machuca nessa sociedade é o medo. Quando a gente se preocupa com o desrespeito e com a morte é o medo de nós sermos os próximos. Inventam desculpas para a galera LGBT e pra galera negra que morre, dizendo sempre que estão envolvidos com algum tipo de criminalidade. Fazer barulho é importante porque leva as pessoas a entenderem quem são e como vivem as pessoas que passam pelo preconceito e pela falta de assistência na sociedade. Quero que as pessoas me identifiquem, saibam que eu existo e que eu resisto. Calado é como eu fico invisível. Para que é que nem, eu se junte comigo! Passamos tanto tempo sem reclamar, ficando calados, comportados. Fazemos barulho para nos identificarmos. Faço barulho sonoro, visual, em todas as mídias, tentando sempre incentivar a não ficarem presos, que reclamem e não dependam de outras pessoas, do governo e nem lei, já que infelizmente ainda é complicado”.

Samilla Souza: “Quem cala consente, como diz o ditado. Precisamos falar alto, gritar, porque só assim vão nos aceitar e nós vamos parar de deixar acontecer o que as pessoas impõe pra gente. Temos que levar informação, às vezes a gente ta tão frenético no dia a dia que não para pra pensar que tá tudo uma merda, que nossos impostos estão sendo usados pra corrupção sabe? Nossa intenção é causar barulho porque ele é necessário pra que todos enxerguem as mudanças que podem acontecer na nossa sociedade”.


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