Cinema

Vase de Noces: um homem, sua porca e a solidão em uma produção surreal

Título Original: Vase de Noces
Gênero: Horror/Romance
Ano:1974
Roteiro: Dominique Garny, John Kupferschmidt, Thierry Zéno
Direção: Thierry Zéno

 

Um homem solitário no marasmo de sua fazenda vive cada dia normalmente, fazendo trabalhos que qualquer fazendeiro faria. Tudo seria normal, se não fosse pelo fato dele sentir uma atração sexual por sua porca. Dessa atração, que ocasionou uma relação amorosa, nascem três porcos. A partir daí, o fazendeiro, que agora também é pai, busca educar seus filhos, fazendo com que eles comam como seres humanos e se portem como tal, mesmo que os animais prefiram viver como a natureza os manda.

Esse é o básico para o início de uma viagem dentro de um pesadelo preto e branco chamado Vase de Noces, protagonizado por Dominique Garny – que também assina o roteiro, e dirigido pelo belga Thierry Zéno. A obra controversa, que incomoda e choca os espectadores mais sensíveis, fala sobre a solidão e os desejos mais bestiais que o ser humano pode ter.

Desde o começo o diretor já mostra que esse não será um filme comum, apresentando o protagonista em uma cena bizarra, onde ele tenta encaixar cabeças de bonecas em pombas. De fato, bizarrice é o que não falta nos 80 minutos da película.

1

No primeiro ato do filme vemos o fazendeiro em sua propriedade, aparentemente abandonada. Vemos o dia a dia dele até o começo do “namoro” com sua porca, com quem inicia uma relação de casal (se assim pode-se dizer). Ele brinca de cabra cega, a alimenta e a trata como sua amante. A relação continua até o ápice, onde acontece uma cena de zoofilia. Dessa relação, nascem três porcos.

No segundo ato vemos um pai tentando ensinar seus filhos a como se comportar. Frustrado pelo fato de que os três porcos não agem da maneira que quer, o pai resolve então matá-los. Deste momento para frente acontecem inúmeras cenas fora da realidade, envolvendo ainda atos de coprofagia (prato cheio para os fetichistas). Pra quem conhece Salò ou 120 dias de Sodoma, de Pasolini, a cena do banquete nem chega perto à referida cena.

O ritmo do filme é lento, tudo acontece de forma lenta, apreciativa, sem falas, apesar de trabalhar assuntos bizarros que atraem o público que adora esse tipo de produção. Isso é algo que pode deixar alguns espectadores cansados e fazê-los desistir da obra. Outro fato, é que temos um único ator em cena durante todo o filme, interagindo somente com os animais.

2

A trilha sonora causa muito estranhamento, variando de vozes de um coral até sintetizadores, passando por ruídos ou sons que os animais e o personagem produzem, tudo muito incômodo, alinhado com a proposta do filme. Para alguns, Vase de Noces é um teste de paciência, enquanto que para outros é um deleite visual. Ou talvez o filme seja feito apenas para chocar, sem trazer valor algum, deixando para o espectador a análise subjetiva. 

O filme, definitivamente, não é aconselhável para pessoas sensíveis, não só por ter cenas de atos que são tabus e que não vemos sendo debatidos em qualquer boteco, mas também pelas cenas de crueldade animal. Por isso se você se choca fácil, ou é aquela pessoa que não suporta ver cenas violentas com animais, passe longe.

O diretor, Thierry Zéno também era artista plástico (Zéno morreu em 2017). Em sua filmografia constam mais 13 filmes, sendo a grande parte, documentários. O ator Dominique Garny não tem uma filmografia extensa. Na verdade, ele somente atuou em três produções, escreveu duas e dirigiu uma (Fonte: IMDB), nada tão chamativo como Vase de Noces.

O filme é uma obra surrealista, um exemplar do que a mente humana é capaz de pensar e trazer incômodo. Talvez o objetivo seja levar a reflexão do quanto o ser humano pode ser selvagem e sem parâmetros. Talvez seja apenas para discutir até que ponto realmente somos diferentes de um animal irracional, um quadro que é pintando e que nunca vai ser entendido.

Este texto originalmente foi publicado por mim aqui. Sendo revisado e ampliado para o Ultraj3.
Anúncios

0 comentário em “Vase de Noces: um homem, sua porca e a solidão em uma produção surreal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: