A segregação interna na comunidade gay

Se você é antenado no meio LGBT+ ou convive com alguém da comunidade, já deve ter ouvido falar sobre alguns tipos de gays, sendo os mais conhecidos deles:
  • Os Ursos ou Bears (homens com um biotipo maior, podendo ser musculosos ou mais gordinhos, e que não se depilam);
  • Os Barbies (gays que buscam o corpo extremamente definido, e músculos avantajados);
  • os/as Afeminad@s (ou Queers, são aqueles que demonstram sua feminilidade abertamente, e que não seguem os padrões heteronormativos);
  • os Paizões (Daddys, são homens mais velhos);
  • e as Drag Queens.

Quem é do movimento, e/ou já entrou em aplicativos voltados a esse público, ou até mesmo gosta de consumir filmes da indústria pornográfica, provavelmente deve conhecer diversas outras denominações de tribos que categorizam os homens gays, seja por tipo físico, comportamento, estilo, idade, entre outros fatores.

Não existe algo que realmente formalize essas categorias. No entanto, algumas se popularizaram fortemente nos últimos anos, ajudando inclusive a dar visibilidade à questões sociais dentro da Comunidade LGBT+, como é o caso dos ursos, e dos afeminados.

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Em contrapartida, novas nomenclaturas surgem continuamente, geralmente inspiradas por estereótipos que segregam ainda mais o movimento, e resultando em conflitos entre eles. Levanta-se então questionamentos como “Por que existe uma constante prática de, no meio gay, se criar rótulos?” ou “Essa categorização constante do homem gay influência na disseminação de preconceitos dentro da comunidade?”.

Para discutir melhor sobre o assunto, foram convidados três homens gays para darem suas opiniões acerca da temática. Foram levantadas 5 questões centrais: Quais tribos eles conhecem, se eles consideram fazer parte (ou se encaixam) de alguma, se existe segregação entre os gays, se os aplicativos influenciam na categorização de tribos, e se a divisão delas trás benefícios e/ou malefícios ao movimento.

Os aplicativos sexualizam?

Bruno Cortez (@togebruno), de 27 anos, afirma não gostar nomenclaturas, nem de dividir pessoas em grupos, mas diz conhecer as mais comuns como os ursos, os twinkies, os afeminados e os discretos. Ele não considera participar de nenhuma das tribos, e acrescenta que prefere não se envolver com isso, e nem se rotular.Em relação a segregação, ele fala que ela existe sim, assim como em qualquer espaço social, motivado por diversos fatores como aspectos econômicos e raciais. Quanto aos aplicativos Bruno afirma que eles influenciam sim no fenômeno, pois esses apps voltados a LGBTs são muito sexualizados, da mesma forma que as categorias são influenciadas pela sexualização de padrões pelos quais um indivíduo se sente atraído, e são incentivados pelo uso dos app’s.

“Partindo do princípio que estamos buscando o melhor para nossa sociedade e para nossa comunidade, ao fazermos esses tipos de divisões, separando a pessoas, estamos eliminando automaticamente o potencial que uma pessoa teria de contribuir na luta da comunidade, causando sofrimentos e uma perda social no geral.”

Padrões falsos

Wendell Klinsmann (@o_klinsmann), de 27 anos, nos disse que, quando ele era mais novo, conhecia apenas a divisão entre ativos e passivos, mas com o tempo os gays começaram a se classificar por outras tribos ou categorias, e ele foi conhecendo as mais comuns, como ursos, os barbies, e as POC’s (apesar de hoje o termo ter se popularizado de tal forma a ser usada por qualquer gay, acrescenta). Ele diz não saber se classificar pois não se sente familiarizado com isso.

“Acho muito estranho você classificar uma pessoa pelo tipo de corpo, ou pela maneira que ela se comporta pois somos indivíduos diferentes, e convivemos com pessoas diferentes recolhendo um pouco de cada vivência”

De acordo com Klinsmann, a humanidade acostumou-se a segregar a muito tempo, não sendo diferente entre o mundo gay, e os aplicativos tem grande influência nesse fenômeno, pois as pessoas buscam se encaixar em um padrão falso, reforçando inclusive, alguns preconceitos.

O terceiro participante, que preferiu o anonimato, é um universitário de 21 anos. Ele contou durante a entrevista que conhece várias categorias, tais como os ursos, twinkies, barbies, daddys, sugar daddys e os queers. Ele disse que conheceu essas denominações por meio da indústria pornográfica.Para o jovem, a segregação na comunidade gay existe sim, mas ela é mais efetiva em situações específicas como em situações de preconceito, em que uma pessoa de determinada “categoria” menospreza outra por uma característica física, por exemplo.

“De acordo com algumas pessoas elas me rotulam como urso, devido ao meu excesso de pelos”.

Para ele, os aplicativos não são responsáveis pela categorização, mas sim a tendência humana de rotular as coisas, como uma necessidade de encaixar alguém em um rótulo para se sentir bem. O entrevistado afirma que, apesar de algumas pessoas se auto-denominarem de uma certa categoria com orgulho, elas devem tomar cuidado ao fazer isso com uma outra pessoa, para não ferir sentimentos de ninguém. “Até o ponto que não se machuque alguém, eu acho que não é maléfico”.

Fotos: reprodução

E você, o que acha sobre isso?

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