Todo mundo perguntou por você, Letrux

Por Gabriel Cardoso e Vanessa Rocha 

Que atire a primeira pedra o manauara que nunca ficou triste em ver um artista ou grupo musical fazer apresentações em várias cidades do Brasil mas nem sequer pisar em terras amazonenses. Quem trabalha com eventos pode explicar com muito mais clareza os motivos dessa “desviada geográfica” mesmo que isso não diminua a chateação, que pode ser até cômica, como no caso da fake news do show da Beyoncé na Arena da Amazônia. Só sabe quem viveu Gabi!

Mas como nem tudo são cinzas, Manaus têm recebido ao longo dos últimos anos muitos shows fodas em um curto espaço de tempo. Nesse período vimos crescer, diante de nossos olhos, eventos e festivais incríveis, sendo um deles o Passo a Paço, uma iniciativa da Prefeitura de Manaus,  que começa amanhã (05) – e olha não tô puxando saco não, ainda mais depois do caso das paradas de ônibus, mas esse assunto fica para uma próxima.

Neste ano, o Passo a Paço contará com inúmeras apresentações musicais, de artistas regionais, nacionais e internacionais. Dentre os diversos shows talvez um dos mais aguardados, de acordo com o meu grupo de amigos, seja o da carioca Letrux, também conhecida como Letícia Novaes, cantora, escritora, atriz, capricorniana com ascendente em virgem e muito mais. O show acontece na sexta-feira, dia 6.

Em entrevista para o ULTRAJ3, Letrux falou sobre a felicidade de finalmente fazer um show em Manaus, o que era um pedido recorrente. Ela nos contou sobre o que espera da apresentação, comentou suas maiores inspirações e deu sua opinião sobre o desgoverno Bolso**** diante dos recentes crimes ambientais na Amazônia.

Também ficamos sabendo sobre o novo disco que será gravado nos próximos meses, quando ela chega em Manaus e, como não somos bestas nem nada, pedimos ainda que ela nos fizesse algumas indicações culturais, com direito a uma dica de cidade para exílio em casos extremos. Afinal, com esse presidente, nunca se sabe né?

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Você disse uma vez em entrevista para o Caio Braz que gostaria muito de tocar em Manaus. É sua primeira vez na cidade? Vai ficar quanto tempo? Qual a sensação de estar no calorzinho amazonense e o que espera do show e do público?

Muita gente de Manaus pedia show aí, muita. Foi crescendo cada vez mais minha vontade com tantos pedidos. Esse desejo dá vontade de realizar, né? Então fico sempre muito feliz quando é a primeira vez numa cidade, o sabor do inédito é delicioso. Chego um dia antes e vou tentar passear sim, claro! Espero que o show seja emocionante e inesquecível. 

O projeto Letrux em Noite de Climão foi um estouro absurdo, trazendo uma música moderna, acordes e uma mixagem bem trabalhada, além de claro letras fodas e a sua performance maravilhosa no palco. Como foi para você toda essa receptividade e tudo o que aconteceu nesse ciclo, que incluiu shows pelo Brasil, voz direta em movimentos e um mar de pessoas que hoje vestem vermelho e pensam em você?

É uma beleza muito especial e rara tudo isso que me aconteceu e ainda acontece. As coisas foram espontâneas e honestas, de todos os lados. O disco foi feito com crowdfunging e cresceu imensamente, sou muito honrada de fazer parte da vida das pessoas.

“Recomendo a todxs que não silenciem seus desejos, ter medo só até a primeira página, mas num lugar de conforto, experimentar tudo, viver tudo até o último talo, ter coragem pra ter mais coragem ainda”

Você anunciou os shows de despedida do disco e está gravando um álbum novo, certo? A Letícia continuará a desenvolver Letrux ou podemos esperar novas mulheres com formas diferentes de viver a tragicomédia da fossa? Pode nos dar alguma pista sobre o que vamos ouvir em breve?

Estou compondo para o próximo disco e dando início a pré produção. Eu adoro essa parte. Mil possibilidades, mil caminhos e a intuição me guiando, é divertido, e doloroso também. Criar não é só uma delícia, às vezes luto. Comigo mesma, com uma frase, com uma melodia, mas gosto muito de compor. Tenho esse frisson. Acho que o próximo disco vai ser mais emocionante que o climão. Sinto isso.

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Em entrevista para Glamour você citou como inspirações Sylvia Plath, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Bethânia, PJ Harvey, Patti Smith e Marina Lima. Se você tivesse a oportunidade de perguntar algo para uma dessas mulheres, o que seria e para quem?

Nossa, não faço ideia do que perguntar… Talvez perguntaria uma coisa que sempre brinco com as pessoas que eu conheço, é meio que um teste psicológico. “Que animal você gostaria de ser e por quê?”Daí a pessoa responde um, aí você diz que ela não pode ser aquele. Aí você pede outro. Aí você diz que também ainda não pode ser aquele e por fim, pede o último animal, o terceiro. E aí depois você avalia que o primeiro animal é o que a pessoa gostaria de ser e não é. O segundo é o que ela realmente é, e o terceiro animal é como os amigos veem essa pessoa. Parece bobo, mas saem altas análises dessa brincadeira. 

É impossível não incluir política na conversa, ainda mais falando sobre o Amazonas. As queimadas constantes que foram notícia em todo o país engajaram muitas pessoas a lutarem contra práticas de destruição na Amazônia, que são constantes, contínuas e nossos governantes não fazem nada sobre. Qual sua opinião sobre as “práticas” adotadas pelo Governo Bolso**** para reverter ou minimizar essa situação?

É tudo muito ultrajante e tratado com muito descaso, esse governo é inadmissível. Parei de pensar que é uma piada. Estamos falando de algo de uma magnitude universal, como a floresta amazônica. O planeta, o ser humano, toda a existência depende dela, e como sempre, esse governo estúpido e retrógrado, não trata da situação com atenção, com cuidado, com responsabilidade. É uma baderna. Estou revoltada.

Quais as expectativas da Letícia, que fala tão naturalmente sobre sexualidade, para produzir arte com essa onda conservadora que aflige o país? Que dica você daria  para quem se inspira em você para lutar contra esse conservadorismo?

Eu esperava mais do Brasil quando eu era criança, tenho vênus em aquário, minha mente viajava. É tão lindo ir pra Portugal e ficar de peito de fora com várias senhoras, tudo mãe de família, também. E os homens não olham, respeitam. Parece pouco, mas é enorme. O Brasil é um dos países que mais mata e violenta mulher e pessoas da comunidade LGBTQI, é um horror, a gente anda uma casa e logo pedem pra voltar 10. É brabo demais. Temo pelo futuro ultra conservador, vai ser difícil. Mas enquanto artista (e mesmo que não fosse, sou curiosa com expansão mental), recomendo a todxs que não silenciem seus desejos, ter medo só até a primeira página, mas num lugar de conforto, experimentar tudo, viver tudo até o último talo, ter coragem pra ter mais coragem ainda.

Caio Braz brincou que você é uma Madonna da Tijuca. Que traços da Madonna você acha que tem e quais gostaria de ter? E já no papo sobre Tijuca, que rolê na você me indicaria ?

Hahahahaha! Acho que somos destemidas, de alguma maneira. Ela foi e fez, tudo que quis. Bancou tudo. Eu também. Quando eu cismo com algo… ui! É isso! E eu queria ter a força física dela, aquilo é absurdo demais, que corpo! A Tijuca tem picos muito astrais. Recomendo muito o barzinho Momo, melhor sanduíches do mundo (mas só aceita dinheiro, choros) e amo muito também a Floresta da Tijuca, a Quinta da Boa vista, lugares idílicos em meio ao caos.

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Sei que a Fernanda Young foi uma grande inspiração pra você, a notícia do falecimento dela foi absurdamente triste para toda nossa equipe. Você poderia descrever o trabalho da Young como uma forma de indicação para nossos leitores que não a conhecem?

Li todos os livros da FY, desde os 16 anos. Uma literatura muito visceral, sincera, neurótica, intensa até o talo. Amo também os roteiros, da tv, cinema, mas nos livros eu tinha identificações e mergulhos mais abissais. Recomendo começar pelo começo mesmo. “Vergonha dos Pés” é um romance muito curioso, ela tinha só 26 anos, mas ainda assim, você vê aquela brasa brilhar e sabe que aquilo ali vai virar fogueira. 

Por fim, queria te pedir indicações nos seguintes quesitos:

Literatura:

A ridícula ideia de nunca mais te ver – Rosa Montero

Música:

O disco da Livia Nery é uma graça

Cinema:

Acabei de ver Rafiki, filme queniano sobre duas minas que se apaixonam num país ultra homofóbico, forte

Signo:

O signo do mês, virgem

Cidade para se exilar:

Tenho pensado muito em ir pra Islândia, na capital Reykjavik

Fotos: Assessoria Letrux/ Ana Alexandrino e Ricardo Borges

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