Mães sentem em dobro

Começamos aqui bem antes do que eu imaginava. Na verdade, começamos mesmo sem eu nunca ter imaginado que um dia escreveria sobre maternidade. Falar sobre isso é algo extremamente novo pra mim. Sou mãe de primeira viagem há pouco mais de 8 meses e acho que ainda estou me redescobrindo, aprendendo, vivendo e digerindo o turbilhão de coisas que estão acontecendo. Ainda não dei conta de reorganizar as emoções e os discursos.

Mas hoje, aqui do auge do meu cansaço e dos minutos que me restam antes da próxima mamada, resolvi rabiscar algumas palavras. Apelei pro clichê mesmo e venho declarar a famosa frase: quando você for mãe, você vai entender. Experimento a mistura doce e azeda dessa realidade e posso dizer que poucas coisas na vida soam com tanto impacto no dia-a-dia.

Não tem outra forma de explicar. Ninguém entende o que é ser mãe até se tornar mãe. Ninguém entende a sua própria mãe até se tornar mãe. Ninguém sabe o que uma mãe passa e sente até se tornar mãe. É assim, simples e óbvio mesmo. Claro, pode até ser que algumas pessoas tenham empatia e tentem compreender emocionalmente a mãe, mas a experiência da maternidade com todos os seus altos e baixos será inimaginável e indecifrável.

A cada dia vivemos um novo aprendizado e acredito que todos os dias estamos nos reinventando. A maternidade por aqui (e acredito que em outras casas também) não é nem de longe perfeita e romântica como nos comerciais de TV ou como na tela do celular. Nem sempre é prazerosa ou bonita. Nem sempre é calmaria e leveza. Nem sempre é felicidade ou certeza. A maioria das vezes é incerteza. É questionamento, inconstância, desafio, cabelo em pé, exaustão. É paciência e dedicação. É instinto e estudo. É complexidade e singularidade.

Já ouvi dizer que ser mãe é fácil. É mentira. Já ouvi que toda mulher nasce pra ser mãe e por isso quando chegar a hora saberá como e o que fazer. Outra inverdade.

Primeiro porque nem toda mulher quer ser mãe. Segundo, porque mães nascem praticamente junto com o bebê. Mesmo que durante nove meses você tenha lido uma montanha de livros sobre recém-nascidos e seu desenvolvimento, você só vai saber o que é ser mãe quando colocar seu filho nos braços, quando você sentir aqueles pequenos lábios tentando abocanhar seu seio em busca de alimento. Mães tornam-se mães no dia-a-dia, na prática mesmo. E vivenciar esse momento brusco de transformação talvez seja uma das coisas mais árduas da vida.

A mãe é a primeira que levanta e a última que deita. E nesse comprido espaço de tempo ela tenta suportar as dores da sobrecarga de todos os dias. Tenta. Porque não é sempre que consegue. A mãe é a primeira a ser julgada e por vezes a última a ser lembrada. É aquela que faz demais e é reconhecida de menos. É aquela que na maioria dos casos é apontada como culpada quando as coisas dão errado.

Ela sente a solidão dolorosa de um puerpério, as mudanças no seu corpo durante e depois a gravidez, os enjoos durante meses, o inchaço nos pés, a retenção de líquidos e os hormônios alterados. Ela avista as marcas das estrias, os seios murchos e caídos, e a barriga flácida que não volta a ser como antes no tempo recorde de 15 dias igual a das mulheres que vê no instagram.

A mãe vive um ciclo incessante de noites mal dormidas e madrugadas exaustivas. Abre mão dos seus “só mais 5 minutinhos” quando o despertador toca pela manhã, abre mão dos seus banhos longos e adia uma simples ida ao banheiro. Ela tem o coque desarrumado como seu melhor penteado, o pijama como seu aliado e as refeições frias como suas companheiras.

Muitas vezes a mãe vê o tempo voar e outras vezes o sente tão devagar a ponto de ter parado. Ela adia os estudos, a carreira profissional, os planos que fez por anos. Mas ela também trabalha com o coração na mão por ter que deixar o filho na creche ou com outra pessoa.

Ela tem a estranha mania de fazer aparentar que tudo está bem o tempo todo mesmo que não esteja. Porque quer provar a si mesma que ela pode dar o seu melhor. Ela quer ser forte mesmo que esteja destruída por dentro. Mas mãe, está tudo bem não estar tudo bem o tempo todo. A vida é assim.

Mães aprendem a dividir a vida com alguém. Aprendem sobre brincadeiras, comidas, músicas, tarefas escolares, passeios, paciência e boletos (a lista é grande). Elas tem como frases mais ditas “tira isso da boca”, “assim vai machucar”, “já falei pra descer daí”, “leva o guarda-chuva”, “mamãe te ama”.

Mães encontram em meio ao caos o tom sublime e extraordinário da maternidade. Elas desbravam o mundo junto ao seu pequeno e colecionam momentos incríveis na memória, seja na pessoal, na do celular ou num álbum antigo de capa dura. Guardam sorrisos que aquecem a alma, abraços sinceros, histórias felizes, canções de ninar inventadas. Vibram a cada conquista do filho. Se emocionam com banhos tomados, dentes nascendo, papinhas, palavras, passos, aniversários, com toda nova descoberta feita.

Mães choram ao ver o filho chorar, sorriem ao vê-lo sorrir, sentem o ardor do joelho ralado, pulam de alegria, cobrem os pés com medo do escuro, saram com um beijinho. Mães sentem em dobro. Sentem em triplo e quantas vezes mais forem necessárias. E mães também ficam imaginando qual vai ser a sensação de quando eles crescerem e forem em busca de novos horizontes e aventuras…

Mães sentem tanto. E mesmo que eu escreva por horas sobre vida de mãe, experiências de mãe e sentimento de mãe será difícil descrever. Mas não se preocupe, se um dia você for mãe, você vai entender.


*ARTE & CONCEITO: “Depois que li o texto, uma frase ficou na minha mente: só mãe sabe, e isso me lembrou um cachoeira. Quando ficamos debaixo dela não sabemos o que pode vir de cima, apenas sentimos. Foi o que o texto me passou, só saberemos quando sentirmos. As linhas em redemoinho são as ações na vida de uma mãe. O pedaço de livro são os pensamentos que a mãe tem. A foto é uma mulher grávida se banhando nessas águas e sentindo essas emoções. O papel grudado com a fita simboliza o filho que uma hora vai sair da barriga da mãe, e isso, só mãe sabe” – @abrasideral 

 

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