Um olhar íntimo, sensível e existencial sobre a Filosofia (II)

O contato com a filosofia nos transforma porque uma de suas principais funções é desconstruir tudo o que está posto e também o que ainda não está. Aliás, se realmente “começar a pensar, é começar a ser minado” (CAMUS, 1965a), logo a filosofia não se desassocia da vida – ambas estão intrinsecamente ligadas – e nem precisávamos do exemplo acima para entendermos a concretude dessa relação. Sendo assim, podemos afirmar que a própria existência torna-se objeto de desconstrução.

Esse processo dialético da desconstrução que permeia nossa existência, acaba por torna-la dinâmica – porque a dialética é puro movimento (em sentido figurado e literal). O tempo passa, a Terra gira, pessoas vão e vêm, a história é construída – e angustiante – porque em certo momento, e principalmente com a ajuda da filosofia, o homem e a mulher se percebem sós, jogados no turbilhão que é a realidade, que a Terra não depende deles para girar, que o sentido da vida não está pronto e que somente eles são responsáveis por dar sentido as suas existências:

“Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porquê” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto” (CAMUS, 1965a).

O “porquê”, que surge como elemento propulsor da angústia existencial, faz-nos sentirmos como estrangeiros. O mundo e as coisas que lhe envolvem parecem não oferecer nenhum tipo de explicação, a vida ‘perde a direção’, seu sentido se torna alvo de questionamentos pessoais. “O divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentido da absurdidade” (CAMUS, 1965a). A absurdidade ou o absurdo torna-se um dos elementos que podem servir de resposta às problemáticas próprias de nossa condição humana.

Diante dele – do absurdo – temos duas saídas: abraçá-lo vivendo ou largá-lo morrendo. A primeira, sem dúvidas é a melhor das opções. Porque, além dos elementos que mencionamos acima, existe também a transcendência – aqui não como elemento relacionado ao espiritual, mas à capacidade de superar algo ou alguma situação.

Ela nos permite, como seres humanos – racionais e com consciência, usarmos de nossa liberdade, a qual estamos condenados, segundo Sartre. Sua proposta filosófica apresenta a liberdade como dimensão mais importante da existência humana. O homem e a mulher, condenados a serem livres, não dependem de nenhum fator que os determine a não ser a eles mesmos. Eles escolhem aquilo que querem ser.

E essa capacidade de escolher implica no homem e na mulher a percepção da responsabilidade que precisam ter diante de cada escolha feita, já que cada uma traz consigo variadas consequências, mudanças que não podem ser desfeitas. Essas mudanças se aplicam no mundo, pois este vai se construindo de acordo com as escolhas de cada um, mostrando assim que não somos responsáveis apenas por nós mesmos, mas também pelos outros e assim os outros para conosco.

A liberdade aplica-se como possibilidade de viver o absurdo conscientemente. Se a vida de alguém desse modo é feliz ou não, não podemos responder. O ser humano é capaz de dar sentido – mesmo que ilusório ou ignorante – à própria existência: tarefa exigente, radical e individual.

* Ilustração: Miguel Simões/ “Desconstrução consciente da consciência”

Continua

Referências:

CAMUS, Albert. Le mythe de Sisyphe. Essais. Paris: Gallimard, 1965a.

 

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